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Testemunha da CPI pede desculpas e Prevent Senior retira ação judicial

Tadeu Andrade

São Paulo — Medicado com flutamida, kit Covid, intubado e cogitado para ser enviado a tratamento paliativo, o advogado Tadeu de Andrade, 68 anos, foi uma das principais testemunhas da CPI da Covid no Senado a relatar o que teria sido uma “trama macabra” da operadora Prevent Senior no tratamento de pacientes internados com coronavírus durante a pandemia.

Após denunciar seu caso aos senadores, ele reiterou as acusações à Câmara Municipal de São Paulo e em um inquérito criminal conduzido pelo Ministério Público (MPSP) que resultou na recente denúncia criminal por homicídio culposo e crime de perigo contra donos e diretores da Prevent na Justiça paulista. Somente o suposto uso indevido do tratamento paliativo para economizar leitos, parte do relato do advogado, foi arquivado pelo MPSP.

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Prevent Senior tem usado carta para ampliar ofensiva jurídica contra testemunhas da CPI e do MPSP

Advogada usa gravação em que Tadeu confidenciou que fez acordo por receio de condenação
Beneficiário da Prevent Senior, Tadeu Frederico de Andrade foi testemunha do MPSP e da CPI da Covid; ele pediu desculpas à empresa

Após todos esses depoimentos, Tadeu de Andrade (foto em destaque) foi alvo de uma ação judicial movida pela Prevent Senior na qual a empresa pediu o pagamento de uma indenização no valor de R$ 100 mil por danos morais. Com receio de uma eventual condenação, o advogado procurou a empresa, no ano passado, e pediu desculpas em troca da retirada do processo.

Com o depoimento de Andrade em mãos, a Prevent Senior tem usado o relato para abastecer ações judiciais contra médicos e uma advogada que denunciaram os tratamentos sem comprovação científica contra Covid-19 nas dependências dos hospitais da operadora, em São Paulo. Nessas ações, a empresa pede até R$ 300 mil a título de danos morais e se diz vítima de acusações inverídicas.

Pedido de desculpas

“Venho por meio desta declaração, em razão de declarações prestadas às CPIs e também a alguns veículos de comunicação, apresentar minha retratação perante à Prevent Senior”, diz Tadeu de Andrade, no início da carta entregue à operadora, em agosto de 2023, e obtida pelo Metrópoles. No documento, ele relata ter procurado a empresa, por meio do advogado contratado para processá-lo na Justiça. Depois, foi recebido por administradores da empresa na capital paulista.

Na carta, Andrade afirma que é beneficiário do plano de saúde desde 2013, assim como sua esposa e sua mãe, “sem nunca ter qualquer reclamação quanto ao atendimento dos serviços prestados”. Ela afirma que acabou deixando ser “influenciado por alguns personagens nefastos e com outras intenções”, como “interesses políticos partidários e interesses jornalísticos”, por conta de “forte emoção” que lhe “assolava” naquele período das CPIs.

Tadeu diz ainda que se excedeu e que deveria ter centrado suas denúncias somente à médica que lhe atendeu no hospital da Prevent, e não à empresa. Segundo diz, a “retratação ocorre agora em momento de maior consciência, lucidez e entendimento dos fatos, diferentemente da minha visão do passado em relação à Prevent Senior”.

Ofensivas na Justiça

Após a retratação, a Prevent Senior retirou a ação de danos morais contra Tadeu de Andrade. O documento com pedidos de desculpas passou, então, a ser usado pela operadora em ofensivas jurídicas contra médicos e uma advogada que denunciaram o tratamento precoce e com medicamentos sem comprovação científica na CPI da Covid.

Somente contra a advogada Bruna Morato, foram duas ações judiciais, ambas com pedidos de R$ 300 mil de indenização. Ela representou médicos que serviram de testemunhas para a CPI e para o MPSP. Também defendeu Tadeu de Andrade na ação que a Prevent Senior moveu contra ele. As ações têm como base entrevistas e depoimentos.

Bruna Morato chegou a ser condenada a indenizar a Prevent Senior em R$ 300 mil em uma das ações. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) reverteu a condenação. Nesse processo, a empresa chegou a usar o relato de Andrade a seu favor para manter a condenação da advogada, mas a estratégia não funcionou.

Áudios sobre desespero

Em outra ação contra a advogada, o roteiro se repetiu. Em sua defesa, Bruna Morato anexou uma ata notarial na qual expõe a transcrição de áudios de Tadeu de Andrade em conversa com ela no aplicativo WhatsApp. Nos áudios, ele diz: “Provavelmente, o juiz vai dar ganho de causa para a Prevent. Então, agora que sai a sentença logo mais, eu devo perder essa ação, lá? E eu tô bem, bem, bem desesperado com isso”.

“Dessa declaração [retratação] para que eu possa concordar e, então, eles arquivariam o pedido e o arquivamento do processo, sem resolução do mérito, né?”, disse Andrade na conversa com Bruna Morato. Ele, então, pediu para que ela revogasse sua procuração para que outro advogado lhe representasse.

A Prevent Senior também usou o depoimento de Tadeu de Andrade em processos contra outros médicos, como foi o caso de George Joppert Neto. Ele está entre os médicos que elaboraram um dossiê para denunciar o uso do kit Covid em meio à pandemia.

“Ficávamos na dúvida se o paciente voltava ao hospital com sintomas por causa do agravamento da doença ou dos efeitos colaterais dos medicamentos”, disse o médico em um de seus depoimentos na Câmara Municipal.

No processo contra Joppert, a Prevent Senior afirma que o depoimento de Tadeu de Andrade “só reforça as mentiras ditas dolosamente e com fins de interesse pessoal” do médico que, segundo a empresa, é “sabedor da ampla repercussão dos seus ataques públicos”. Nessa ação, ele é cobrado em R$ 100 mil pela empresa.

Procurada pelo Metrópoles, a Prevent Senior afirma que Tadeu de Andrade procurou a empresa, em agosto de 2023, “dizendo-se arrependido do que havia dito sobre a empresa em depoimentos e entrevistas e visando restabelecer a verdade dos fatos”.

“Propôs que fosse retirada a ação judicial indenizatória por danos morais movida contra si em troca de uma retratação escrita, o que foi aceito. A retratação somente é usada em peças judiciais que têm como base as antigas acusações, admitidas como infundadas pelo próprio beneficiário”, diz a Prevent.

Procurado pelo Metrópoles, Tadeu de Andrade não negou as informações e não quis dar entrevista.

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